Certo alguém um dia disse:
- Os amigos vêm e vão, por horas, dias ou uma estação.
Fabrício tinha a mania irritante de dizer frases soltas em momentos inoportunos, naqueles breves instantes as palavras lhe brotavam pelas veias e o impediam de se conter, porém Beatriz nunca via nenhuma necessidade de serem ditas ali enquanto estavam sentados debaixo da mangueira.
Mas algumas dessas frases soltas sempre acabavam se encaixando num quebra cabeça sem fim chamado vida, onde sempre parece sobrar ou faltar uma peça e nós ficamos olhando boquiabertos para o imprevisto.
Não se pode fugir.
É como ser pego de surpresa por alguém que não vemos há muito tempo.
Do nada uma mão acena do outro lado da rua e pensamos:
- Oh aquela pessoa ali parece a minha amiga dos tempos de escola, mas não pode ser ela...tão mudada que está.
Percebemos que na primavera da infância essas mesmas pessoas parecem ser UMA simplesmente,porém com o passar dos anos essa simplicidade diminui, a complexidade nos surpreende e certas características continuam irritantemente iguais as que costumamos lembrar num dia qualquer, do nada.
O inesperado está sempre na espreita aguardando um segundo de distração e lá estamos nós de novo: perfeitamente confusos quando uma velha desavença do passado nos pede abrigo por algum motivo.
De coração desarmado: como negar o abraço?
O destino se diverte a nossa custa com suas tantas ironias, cruzando caminhos que seguem em direções totalmente opostas.
- Dê o abraço e vá embora (sábio conselho de Fabrício).
- Não se abraça sem se envolver seu babaca. Uma vez doado, a alma compromete-se.
Beatriz deveria sentir-se inútil e partir quando não mais fosse desejada em uma vida; esse é um conceito simples para qualquer pessoa, menos pra ela.
Não percebe que não estando presente é, talvez, a forma mais precisa das pessoas notarem sua falta, seja pela ausência das risadas que costuma dar ou pelas frases soltas em momentos inoportunos(tão irritantes como as de Fabrício).
Alguns seres só estão presentes em nossa vida por apenas uma estação, seja qual for, para nos marcar.
Ensinar algo, não há possibilidade de fugir da lição.
Acontecem porque tem de acontecer e passam como uma tempestade de verão.
Que nos resta aprender?
Beatriz interroga-se sem entender bem para que servem todo esse aprendizado a que é submetida.
E chora por puro desamparo.
Sabe que no fundo, por mais que se disfarce, certas pessoas sempre nos deixam o sentimento de estarmos sozinhos até as células quando se vão, levando consigo um pedaço de nosso coração na bagagem.
E talvez nunca se dêem conta da falta que fazem.
São insuportavelmente insubstituíveis.
Deixaram conosco um santuário vazio após a inevitável partida.
E uma imensa saudade que sentimos de nós mesmos enquanto listamos todas as possibilidades que não poderemos viver.
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