"Duvida que do céu a abóbada azulada
Tenha esferas de luz de um mágico esplendor,
Duvida que seja o sol o facho da alvorada,
Duvida da verdade em tua alma gravada,
Mas não duvides nunca, oh! Nunca, d'este amor."
(William Shakespeare)
Ela era um lindo filhote de poodle branco de focinho marrom com olhos castanhos incomuns quando a vi pela primeira vez. Logo se via que não se tratava de uma cadela qualquer.
Seu nome era pronunciado sempre como uma prece, pois refletia o primeiro milagre da vida criado por humanos: Dolly.
Porém essa realmente era diferente das outras, não apenas pelas características impares que carregava em si, mas pela sua alma particularmente mais doce que mel.
Lembro com enormes saudades de suas fugas ao meio dia quando sua Donna esquecia por dois segundos o portão entreaberto, afinal não bastava mais do que isso para que lá se fosse Dolly como uma flecha ganhando o mundo com as patas.
E Solange costumava me gritar pela janela antes de tentar buscar a fujona:
- Tássia pega a Dolly pra mim, por favor.
Por favor?
Por Dolly eu faria isso mil vezes no mesmo dia sem pestanejar, não poderia negar-lhe um pouco de retribuição, pois nem um dia sequer ela negou-me sua feliz alegria ao me esperar com latidos no portão.
Eu era a sua escolhida entre todos os outros.
Infelizmente Dolly seria incapaz de negar-me um ultimo aprendizado: a partida.
Ela brincava conosco nesse dia, surpreendia-me que mesmo com seus doze anos ainda conservava em si a antiga alegria infinda dos tempos de filhote destruidor, sem permitir que a idade a roubasse.
E por ironia num desses instantes de êxtase ela de um ultimo suspiro e caiu pro lado.
Um fim merecido! Depois de tantos anos de devoção ofertados sem cobranças.
A consciência de sua perda nos vem aos pouco: um brinquedo furado com os poucos dentes que lhe sobraram, o tapete fora do lugar, a falta de mais um latido no corredor, a saudade do pêlo branco nas roupas...ninguém sabe sem ela passear.
Falta aquele ar de sabedoria que o tempo gravou em seu semblante.
Sinto tanto a sua falta pequena.
As lagrimas insistem em cair... Representam nossas faltas de tempo, as brincadeiras, os latidos, as abordagens, a sua partida.
Seus humanos desejam que haja um cantinho bem quente para ti no céu dos cães e claro todas as boas delicias que você adorava aqui na terra que não conseguíamos negar aqueles "olhinhos castanhos incomuns".
Um dia anjo, eu espero lembrar de ti sem as inevitáveis lágrimas que teimam em cair,
Afinal teu amor por nós foi sem dúvida o melhor milagre que experimentamos de um Ser feito pelas mãos de Deus.
Seja feliz, no céu dos cães minha pequena grande Dolly.