quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dos amores de mãe II


"Duvida que do céu a abóbada azulada

Tenha esferas de luz de um mágico esplendor,
Duvida que seja o sol o facho da alvorada,
Duvida da verdade em tua alma gravada,
Mas não duvides nunca, oh! Nunca, d'este amor." 

(William Shakespeare) 


Ela era um lindo filhote de poodle branco de focinho marrom com olhos castanhos incomuns quando a vi pela primeira vez. Logo se via que não se tratava de uma cadela qualquer.
Seu nome era pronunciado sempre como uma prece, pois refletia o primeiro milagre da vida criado por humanos: Dolly.
Porém essa realmente era diferente das outras, não apenas pelas características impares que carregava em si, mas pela sua alma particularmente mais doce que mel.
Lembro com enormes saudades de suas fugas ao meio dia quando sua Donna esquecia por dois segundos o portão entreaberto, afinal não bastava mais do que isso para que lá se fosse Dolly como uma flecha ganhando o mundo com as patas.
E Solange costumava me gritar pela janela antes de tentar buscar a fujona:


- Tássia pega a Dolly pra mim, por favor.


Por favor?
Por Dolly eu faria isso mil vezes no mesmo dia sem pestanejar, não poderia negar-lhe um pouco de retribuição, pois nem um dia sequer ela negou-me sua feliz alegria ao me esperar com latidos no portão.
Eu era a sua escolhida entre todos os outros.


Infelizmente Dolly seria incapaz de negar-me um ultimo aprendizado: a partida.
Ela brincava conosco nesse dia, surpreendia-me que mesmo com seus doze anos ainda conservava em si a antiga alegria infinda dos tempos de filhote destruidor, sem permitir que a idade a roubasse.
E por ironia num desses instantes de êxtase ela de um ultimo suspiro e caiu pro lado.
Um fim merecido! Depois de tantos anos de devoção ofertados sem cobranças.


A consciência de sua perda nos vem aos pouco: um brinquedo furado com os poucos dentes que lhe sobraram, o tapete fora do lugar, a falta de mais um latido no corredor, a saudade do pêlo branco nas roupas...ninguém sabe sem ela passear.
Falta aquele ar de sabedoria que o tempo gravou em seu semblante.
Sinto tanto a sua falta pequena.


As lagrimas insistem em cair... Representam nossas faltas de tempo, as brincadeiras, os latidos, as abordagens, a sua partida.


Seus humanos desejam que haja um cantinho bem quente para ti no céu dos cães e claro todas as boas delicias que você adorava aqui na terra que não conseguíamos negar aqueles "olhinhos castanhos incomuns".
Um dia anjo, eu espero lembrar de ti sem as inevitáveis lágrimas que teimam em cair,
Afinal teu amor por nós foi sem dúvida o melhor milagre que experimentamos de um Ser feito pelas mãos de Deus.


Seja feliz, no céu dos cães minha pequena grande Dolly.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um não sei o quê

Certo alguém um dia disse:
- Os amigos vêm e vão, por horas, dias ou uma estação.

Fabrício tinha a mania irritante de dizer frases soltas em momentos inoportunos, naqueles breves instantes as palavras lhe brotavam pelas veias e o impediam de se conter, porém Beatriz nunca via nenhuma necessidade de serem ditas ali enquanto estavam sentados debaixo da mangueira.

Mas algumas dessas frases soltas sempre acabavam se encaixando num quebra cabeça sem fim chamado vida, onde sempre parece sobrar ou faltar uma peça e nós ficamos olhando boquiabertos para o imprevisto.
Não se pode fugir.

É como ser pego de surpresa por alguém que não vemos há muito tempo.
Do nada uma mão acena do outro lado da rua e pensamos:
- Oh aquela pessoa ali parece a minha amiga dos tempos de escola, mas não pode ser ela...tão mudada que está.

Percebemos que na primavera da infância essas mesmas pessoas parecem ser UMA simplesmente,porém com o passar dos anos essa simplicidade diminui, a complexidade nos surpreende e certas características continuam irritantemente iguais as que costumamos lembrar num dia qualquer, do nada.
O inesperado está sempre na espreita aguardando um segundo de distração e lá estamos nós de novo: perfeitamente confusos quando uma velha desavença do passado nos pede abrigo por algum motivo.
De coração desarmado: como negar o abraço?

O destino se diverte a nossa custa com suas tantas ironias, cruzando caminhos que seguem em direções totalmente opostas.

- Dê o abraço e vá embora (sábio conselho de Fabrício).
- Não se abraça sem se envolver seu babaca. Uma vez doado, a alma compromete-se.

Beatriz deveria sentir-se inútil e partir quando não mais fosse desejada em uma vida; esse é um conceito simples para qualquer pessoa, menos pra ela.
Não percebe que não estando presente é, talvez, a forma mais precisa das pessoas notarem sua falta, seja pela ausência das risadas que costuma dar ou pelas frases soltas em momentos inoportunos(tão irritantes como as de Fabrício).

Alguns seres só estão presentes em nossa vida por apenas uma estação, seja qual for, para nos marcar.
Ensinar algo, não há possibilidade de fugir da lição.
Acontecem porque tem de acontecer e passam como uma tempestade de verão.

Que nos resta aprender?

Beatriz interroga-se sem entender bem para que servem todo esse aprendizado a que é submetida.

E chora por puro desamparo.

Sabe que no fundo, por mais que se disfarce, certas pessoas sempre nos deixam o sentimento de estarmos sozinhos até as células quando se vão, levando consigo um pedaço de nosso coração na bagagem.
E talvez nunca se dêem conta da falta que fazem.
São insuportavelmente insubstituíveis.
Deixaram conosco um santuário vazio após a inevitável partida.

E uma imensa saudade que sentimos de nós mesmos enquanto listamos todas as possibilidades que não poderemos viver.