segunda-feira, 19 de julho de 2010

Das esperanças que não foram perdidas...II

Era hoje um dia como outro.
Tirando o diagnostico em suas mãos a normalidade com certeza continuaria.


- Você tem Tuberculose, minha filha. Não há outra explicação pra esse monte de
anomalia nos seus pulmões.


O termo carinhoso não servia de consolo. A médica tentava não apavorá-la, mas seus olhos não mentiam...aquele brilho fosco revelava bem mais do que a voz que se ouvia.


O coração aos pulos. Sentia-se tão pequena naquele consultorio. Agarra a bolsa com a ansia de quem segura firme no parapeito da janela antes de cair. O couro confundido com concreto.


Estava armado o cenario na vida rela, não se restringia apenas a paisagem pintada a mão na primeira pagina de um livro que lera há uns tempos atrás...onde no fim a heroina entregava-se resignada ao "mal do século".
O rapaz, pobre rapaz, a segurava pela mão para alentar seus ultimos instantes enquanto preparava-se para receber de seus lábios o ultimo suspiro de Daniela.
Era chegada a hora da encomendação e posteriormente a da partida.
Apagaria-se a ultima luz da varanda.


Mas não ela.


No fundo era esse o destino sonhado em seus dias de nostalgia.
O século XIX guardava pra si (somente para si) o fim, não mais aquele fim definitivo que muitos romanticos já sonharam pra si...hoje haveria de ser um novo começo...
como se a ultima pagina do romance, decidisse por si mesma, que o destino não privaria os dois amantes do "viveram felizes para sempre"...


Porém a folha de papel na sua mão, anunciava exatamente isso:
o ar em seus pulmões haveriam de entrar e ficar. Quando decidissem sair levariam consigo um pouco de sua dor pelo mundo...e iriam parar de ajudar a viver e a levariam a odiar a sensação de respirar.


Era até ironico. Logo, Carolina, que sempre sentiu-se uma sufocada de natureza.


Queria o fim, o meio, o inicio do dia. Tentava achar sua razão que ficara perdida no momento que o dia não mais era um outro qualquer. "Naquele segundo que durou bem mais do que mil segundos".
Durou décadas...em que cada ano lhe roubava mais do que uma mera fantasia. Lhe privava de eras.


Gostaria de chamar de a força do destino, mas sabia que Deus estava atras de alguma cortina, controlando de longe cada passo dado pelo acaso naquela estoria toda.


A sua força segurava-a pela cintura...como que a impedindo de cair na historia em que a protagonista na verdade era Daniela, não ela.


Não há um manipulador de fantoches.
O mesmo Deus que mantem os planetas em orbita...é o mesmo que está trabalhando em algum lugar por ai...


O dia haveria de mudar...junto com sua sorte.


O sol não haveria de se pôr....

terça-feira, 6 de julho de 2010

Das esperanças que não foram perdidas...

"Pálida sombra dos amores santos!
Passa quando eu morrer no meu jazigo,
Ajoelha ao luar e entoa um canto...
Que lá na morte eu sonharei contigo. (Alvares de Azevedo)

A eterna sina dos românticos é padecer sonhando.
Carolina, LIA, RELIA, SORVIA cada palavra do livro romântico que tinha nas mãos.
Sonhava com o mesmo destino um dia: a morte da heroína tuberculosa.
Mas, não. Não haveria de ser. Não para ela.
Considerava injusto haver apenas uma doença com o status de romântica.
Há tantas outras que os enamorados sofrem todos os dias.
Carol sofria da indiferença daqueles que não entediam seu desejo de desaparecer. Um dia, uns meses, uns anos.
Devorava seus livros de contos e encantos, não pela beleza da escrita, mas pela feiúra da vida.
A tosse fazia-lhe doer o peito, como se lhe cravassem navalhas. Tentava fechar a boca, para impedir que seu coração não saísse por ai...caminhando pelo mundo. Sozinho. Mudo.


Chorava, não pela falta de amor. Amor ela possuía, só não sabia usa-lo quando transformava-se em farpas.
As lágrimas corriam-lhe pela face, por padecer no paraíso.
Por mais que crescesse sempre existiria alguma coisa não haveria de entender.


O pior eram as madrugadas insones quando seu corpo não conseguia descansar.
Dava às palavras: vida, amor, sonhos e gloria uma significação profunda.


Uma noite não resistiu... pediu a Deus o fim do tormento juntamente com o fim da vida, para que a mesma terminasse junto com a vontade de sorver o ultimo ar. Pereceria junto a esperança do esquecimento.
Como a ultima luz na varanda.


Deus não ouviu suas preces.
Ao contrario, mostrou por um instante breve, a face.
Acarrancou-lhe a dor (da alma, do pulmão, do coração) para que Carol tivesse um sono sem remédios.


Era tao difícil a falta de palavras para lidar com tudo isso.
Ela só sabia rogar.


- Meu Deus está tudo em suas PODEROSAS mãos...