sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

" A tal Morena"

"E ela não passava de uma mulher... inconstante e borboleta."(Clarice Lispector)

Sempre sentia que na vida haveria muitas escolhas a serem feitas, ao chegar nas encruzilhadas
que geralmente vem ao fim de alguns caminhos, inevitavelmente escolhia. Porém abandonar as possibilidades de outra decisão
não era, por assim dizer, seu dom.
Sempre pensava em como seria se tivesse seguido por outra estrada.
Em dias de tempestade olhava através do vidro da janela, com o cheiro de terra molhada lhe invadindo a alma
e imaginava como seria estar no quintal,pés descalços na grama,em contato com a natureza,
sentindo a chuva lavar seu corpo e seu coração.
Quando criança pegava terra com as mãos e sentia-se parte dela.
Seu espírito regozijava com a possibilidade de dar-se toda para a eternidade.
Não temia as mudanças bruscas do tempo, pois também continha em si a escuridão da noite.
Mas havia também os dias de sol.
Nas épocas intermináveis de calor temia que o mundo fosse acabar ao pôr do sol.
Por isso queria aproveitar cada raio ultravioleta que ultrapassava a atmosfera. Conhecia a energia do céu.
Sim, dentro dela também havia raios de sol que lhe escapam pelos sorrisos que oferta de graça,
pelo simples desejo de ser amada.
Via desenhos nas nuvens e sentia-se como elas: diferente em modos e formas.
Queria uma flor de cacto, mas os espinhos a feriam e suas mãos desastradas a impediam de colhê-la.
Doou seu amor aos cães que lhe deram de presente. Acreditava que eles eram seus anjos. Que a protegiam de ameaças
que somente quem ama incondicionalmente consegue ver. Sempre ouvira dizer que os animais viam além das
aparências...sentiam a energia das pessoas. Ainda sonhava com o dia em que eles lhe falariam com palavras como em Nárnia.
Os via como irmãos, filhos, primos...parentes próximos e distantes. Precisavam ser protegidos.
Idealizava o mundo perfeito, que se refletiria dentro e fora de si. Ainda não sabia como, mas a esperança
a fazia sonhar com dias melhores.
Seus amigos são: portos seguros, albergues, parques de diversão nos quais ela deposita um pouco de sua alma.
Coloria seus dias com os vestidos que usava. Sentia-se livre dentro de seus panos leves.
A mesma liberdade que sentia quando abria os braços cavalgando e deixava o vento transpassar seu corpo.
Cabelo ao vento, sorriso nos olhos, adrenalina no corpo...se o cavalo se assustasse bruscamente com algo
e provocasse uma queda, seria fatal. Porém naquele momento só queria a libertação que aquela sensação lhe provocava.
Ás vezes acordava na madrugada e narrava pra si longas historias de sua própria existência.
E era sempre tão crítica e apaixonada que chegava a ser cruel. Era difícil perdoar seus próprios defeitos.
Quase podia sentir a maldade que vindo devagarzinho do mundo quase a corroia.
Podia sentir novamente os cheiros que impregnavam as velhas lembranças, perfumes gastos pelo tempo (que era sempre egoísta
e tomava pra si, as coisas que um dia desejamos guardar por toda a vida).
Era nostálgico lembrar. O arrepio novamente lhe corria pela espinha.
Queria escrever sobre suas emoções passadas, mas sabia que perderia alguma coisa essencial quando fosse passá-las da memória
à palavra. E preferiu guardá-las onde estava.
Precisamos de segredos para viver.
Saíra do casulo que a prendia e limitava sua visão ao completar a maioridade...aos vinte anos começara a ter asas.
E estas não lhe cabiam nas costas.
Agora pisava firme nas linhas demarcadas nas palmas de suas mãos. Optava pelo que fazia seu coração pulsar até doer, apesar
de todas as conseqüências que poderiam acarretar. Sentia-se viva.
Por mais que crescesse haveria sempre alguma coisa que não conseguiria entender.
Apaixonou-se por filosofia. Começou a estudar geografia...e viu-se completa. Seu coração de estudante foi preenchido pelas matérias.
Achara as ferramentas de que precisava para mudar o mundo (talvez somente o seu!).
Agora descobria caminhos pra desvendar a verdade de sua própria existencia. Era tão mágico.
Hoje em dia ainda oscila entre a mulher madura que tem metas a cumprir, que um dia será mãe, esposa, professora e pesquisadora...
e a menina sonhadora que ainda quer mudar o mundo, nostálgica, inconformada, filósofa, chorona e sem censura.
Tem um grande homem ao seu lado que lhe estende as mãos (firmes e rudes) nos momentos em que ela sente medo, que lhe abre os
braços e deixa que ela se encontre neles. Ajuda a consolar quando ela chora porque não pode mudar alguma coisa.
Oferece esperança de que nada é tão estático que não pode ser mudado.
Ensina a agradecer a Deus pelos momentos em que ELE age e não percebemos.
E novamente o ciclo da vida é retomado. Não há morte ... a vida tornou-se sem limites.
Voaria por/com prazer.


Morena Rosa =)

Um comentário:

Lubi disse...

Obrigada por linkar meus blogs aqui.

Beijos.