sábado, 15 de dezembro de 2012

Sobre Gatos


"Dois gatos pingados fora da lei...gritos e sussurros... tudo bem." (Ed Motta)



Aquele gato preto tem o dom de se destacar nos ambientes que frequenta e juntamente com isto, o poder de atrair suas vítimas para o abatimento final que advém de seu olhar penetrante.
Seu ronronado encanta e inebria as pobres meninas que sonham em algum dia domesticá-lo.
Oferecem a ele suas estantes com livros, propõe a ele whiskas sachê a qualquer hora do dia ou da noite, bolas de lã, suas costas como arranhadores.
Mas nada disso o encanta por completo...
- Gato vira lata não resiste ao luar. - Já dizia o próprio.
Elas nunca ligaram para essa resistência e insistem no jogo sedutor de atrair sua atenção. Em vão.
Dia desses esqueci a porta entreaberta e ele se empertigou pra dentro de casa com a cara mais cínica que conseguiu produzir, achando que me enganava sobre suas verdadeiras intenções!
Pensava que eu havia me esquecido das artimanhas que ele produzia e do modo como costumava tentar me dominar...começava sempre com aquele olhar que me devorava, que arrancava minha roupas a cada piscadela, que queimava a cada batida do meu coração.
O ronronar era meu velho conhecido, aquela sinfonia de necessidade de atenção inconfundível.
Queria ser notado, olhado e acariciado, mas não bastava dar-lhe meu sorriso, quer sempre as minhas mãos.
Emaranhamos apenas uma delas, senti a outra controlar minha nuca em direção aos seus lábios..beija-me gatinho, beija-me mais!
Começa então a esfregar-se nas minhas roupas para deixar seu pelo nelas, todos os gatos querem deixar vestígios territoriais, provando aos vadios que virão após si, que ele esteve ali. E se aproveitou da fragilidade de minhas pernas ante si.
Dancemos então ao luar do meu terraço, vem comigo Vadio!
Lembro-me vagamente de ter me deixado envolver naquelas garras retráteis que arranhavam meus sentidos, despedaçando-os, um por um, ao seu bel prazer.
Sua língua áspera dava novo gosto à minha vontade de continuar aquele ritual de entrega, no ponto mais alto da minha casa adicionávamos os ingredientes necessários para a que o rito se concretizasse, sem nos importar que a lua de mel no céu presenciasse aquelas fanfarronices todas...
Eu Miava por sua volúpia, Miávamos juntos por mais.
Você consegue ouvir os miados cantados de dois gatos no cio quando se encontram?
Sim, aqueles éramos nós dois.
O ronronar era apenas uma forma de me chamar para ele, a saliva que adivinha do gesto me convocava a apreciar o encantamento, marcava as zonas eróticas do meu corpo...loucamente eu tentava arranhar não apenas os sentidos, como também as costas nuas sob os pelos negros do gato ante a mim.
Não havia ninguém mais com aquele encantamento ao luar, por mais que o olhasse a visão dele seria sempre inebriante ao meu desejo. Fico abobalhada como o astro noturno cede ao felinos suas artimanhas de sedução.
Amor de bicho primitivo, dominava-me para além da vontade de possuí-lo , prendia-me o ar nos pulmões a fim de soltá-los em demorados miados de prazer.
Perguntem-se sobre as paixões malucas que sentíamos em meio aos gritos e sussurros que compartilhávamos  os vizinhos não ousavam atrapalhar os felinos em seu momento de cama de gato... ou seria cama sutra?
Não nos importava as posições, pois as ondas de feromônios impregnavam as camadas da minha pele com mais tesão dele.
Gatos sentem prazer através da liberdade de sentir sem preconceitos e manuais.
A independência faz seu lado sentimental exercer ainda mais fascínio nas reles mortais que os desejam.
Isso nunca me amedrontou, as portas e janelas do meu coração estão abertas para que chegues e vás, ficasse quando desejasse.
Demora-te o quando quiseres, meu bem! Não te quero preso a convenções que matariam tua espontaneidade.
Tua falta de jeito para o amor não justifica teu modo vadio de tentar enganar meu sexto sentido que sempre me fala sobre tua vontade de ficar até o dia raiar.
Te ofereço uma almofada confortável! Fica, até te faço um chamego na barriga, até te deixo dormir enroscado nas minhas pernas.
Minhas marcas estão por baixo do teu pelo viçoso, onde não podes negar minha presença, tampouco teus sentimentalismos que nunca me enganaram...meu nome está melodioso em seu miado, seu gato!


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sobre os vícios da paixão

  Te sinto em ambientes que me são tão cotianos quando simples.
  Quando chego em casa e as luzes não ascendem percebo-te fazendo parte desta conspiração para me deixar mais instigada a perceber as nuances do teu corpo no escuro.

  Apalpo tuas formas imaginárias e convido-te para deitares comigo na rede que nos espera sob a lua que brilha na janela e inunda a casa com a luz prateada que nos basta.
  Fale-me deste teu coração desiludido para que eu não cause, tampouco alimente teus poços de solidão.
  
  Meu amor por ti anda me enlouquecendo... percebo isto há algum tempo.

  Hoje a tarde eu te vi da varanda da minha casa, tu eras um homem simples vestido à moda dos cavalheiros do século XIX, com trajes marfins e chapéu preto, trazias uma flor na mão e um sorriso espontâneo no rosto.
  Imaginei que seria teu coração aquela flor que me ofertavas com as mãos trêmulas. Aceitei com as minhas desajeitadas, tentando conter a ansiedade que me tomava, não consegui. Arranquei-as, bem dizer, de ti e a coloquei num vaso com água e açúcar... era tão lindo te ter aqui.

  Mas a novela das 18h voltou e me despertou daquela visão que eu criei sobre nossa entrega, me acordou da realidade inventada feita pra te trazer de volta pra casa, pro nosso ninho, pro nosso amor...que anda vazio de acalento desde a tua partida.

  A lua continua sua ascensão no céu e sou obrigada a contar o espaços vazios entre as estrelas na esperança de achar caminhos onde tua vinda possa ser facilitada pelos atalhos que eles formam.
  Essa ausência que se instala entre essas paredes, só será saciada com a tua risada inundando a minha casa com o frescor dos sonhos que resistem a falta de estímulos diários e ao teu impossível orgulho de assumires quem és.

  Deletados os teus personagens inventados e incorporados ao teu dia a dia, entre meus lençóis conheci o que de ti havia de mais puro juntamente com aquele olhar de cãozinho abandonado esperando ser achado, adotado e amado.

  E como meu desejo te quis, desde aquele pequeno momento que te percebi próximo de mim.
  Agarrando-me a chance de te ter aqui, transcendi as barreiras dos pensamentos negativos...tomei coragem de pisar pé ante pé na tua direção: sorriso nos lábios, estrelas nos olhos, coração na boca.

  Fala-me de novo das tuas músicas preferidas, fala!
  Ficas tão lindo descrevendo a discografia do Los Hermanos.
  Dizes novamente sobre teu sentimentalismo que me encanta, que aquele álbum do Cine Íris é o melhor de todos os tempos, que eras fã antes disso tudo virar modinha e que o "Último Romance" é a música dos apaixonados.
  
  "Sentimental" só faz sentido quando se é "Um par".

  Me manda novamente essa canção que te deixa apaixonado num bate papo de alguma rede social, me pede pra ouvir, me toma pelo braço e me impede de fugir de nós.
Sei que seu desejo se liberta quando abrimos a janela para a primavera entrar.


  A chuva é apenas mais uma desculpa pra beber mais um copo e descobrir coisas afins.

  Sorri novamente ao lembrar que eu torço pro mesmo time que você, seu bobo!
  Quem mais tem uma estrela no peito e no céu como guia? Mentira!?

  Não me deixa mais chegar no quarto andar sem um beijo, mais dormir sem sentir dor nas costas, reclamar dos mosquitos, sem uma garrafa d'água... sinto tanta sede dos teus beijos na madrugada.

  Vem correndo logo, orgulho não faz bem pro coração, não!



"Vamos viver nossos sonhos temos tão pouco tempo." (CBJr)