Eu queria que tudo tivesse sido muito natural.
Queria pensar que entre nós dois sempre existiriam uma enorme teia de possibilidades que fossem se tecendo em nossas vidas e não nos permitisse sair delas.
Queria que tivesse sido natural que nosso tempo tivesse paralisado no mesmo segundo em que nos olhamos à primeira vez.
Com você descendo aquelas escadas, com as mãos nos bolsos do casaco... de peito e sorrio abertos pra mim.
Mas isso é querer mudar o passado de uma vida inteira, e isso é perfeitamente impossível! Eu sei.
Um dia desejei que naquele quarto de hotel onde eu deixava de ser minha e dos outros para ser tua, tivesse sempre a presença de uma outra pessoa que não fosse o silencio das palavras que você jurava que eu sabia ler em tuas expressões.
Julgava-me sensata todas as vezes em que me afastava de ti para que pudesse respirar outro ar que não fosse o meu.
Eu tentei de todas as formas possíveis dar-te a liberdade que sempre furtaram de mim.
Dei as asas ao teu coração para que pudesses voar para longe de mim, quando minha brisa começasse a te doer. E a sufocar o teu coração.
Mas tu jamais me pedira o que dei-te sem perceber, o que te obriguei a ter por pensar que era isso o melhor pra ti.
Querias mesmo era ficar, amar-me, querer-me... doer-te e até mesmo sangrar. Tu nunca se importavas com isso mesmo!
Nunca quis o pouco que eu te dava, na tua cabeça sempre havia mil coisas que não consegui compreender.
Sempre um passo à frente do meu, uma música mais longa que a minha, uma tatuagem mais colorida que eu.
Doeu-me todos os segundos em que te magoei, em que disse palavras não calculadas sobre nós dois, tuas palavras jogadas ao vento, teus sonhos despedaçados.
Pergunto-me o tempo inteiro que espécie de criatura é você. Que tipo de loucuras carrega sobre mim e sobre nós dois enquanto andas nesse mundo.
Já se passaram cinco anos. O tempo já nos deixou quase impotentes.
Tanta coisa vivida. Sentida. Despedaçada.
Olhando a chuva que desaba do céu é como se visse a mim mesma por dentro, como se o próprio céu e a chuva que escorre dele, fosse o sangue que escapa do meu coração ao encontro de outro lugar pra repousar.
É simples, a chuva em seu encontro com a terra não se permite ficar apenas na superfície. Impregna-se nos poros, percorre os caminhos pré-existentes, cria novos e se permite deixar uma marca. Como se no seu ciclo o mundo nunca fosse o mesmo sem ela.
Assim me sinto hoje: como se o tempo tivesse me pregado uma peça.
E como se essa chuva que vejo da janela do nosso quarto, fosse apenas a predição do começo de uma nova tempestade de verão que irá deixar despedaçado mais uma vez nosso pobre coração.
Me lavará o corpo e ficará impregnada cheia de dor e sonhos nos caminhos da minha pele.