domingo, 8 de janeiro de 2012

As cartas que eu não mando II

Eu queria que tudo tivesse sido muito natural.
Queria pensar que entre nós dois sempre existiriam uma enorme teia de possibilidades que fossem se tecendo em nossas vidas e não nos permitisse sair delas.
Queria que tivesse sido natural que nosso tempo tivesse paralisado no mesmo segundo em que nos olhamos à primeira vez.
Com você descendo aquelas escadas, com as mãos nos bolsos do casaco... de peito e sorrio abertos pra mim.
Mas isso é querer mudar o passado de uma vida inteira, e isso é perfeitamente impossível! Eu sei.
Um dia desejei que naquele quarto de hotel onde eu deixava de ser minha e dos outros para ser tua, tivesse sempre a presença de uma outra pessoa que não fosse o silencio das palavras que você jurava que eu sabia ler em tuas expressões.
Julgava-me sensata todas as vezes em que me afastava de ti para que pudesse respirar outro ar que não fosse o meu.
Eu tentei de todas as formas possíveis dar-te a liberdade que sempre furtaram de mim.
Dei as asas ao teu coração para que pudesses voar para longe de mim, quando minha brisa começasse a te doer. E a sufocar o teu coração.
Mas tu jamais me pedira o que dei-te sem perceber, o que te obriguei a ter por pensar que era isso o melhor pra ti.
Querias mesmo era ficar, amar-me, querer-me... doer-te e até mesmo sangrar. Tu nunca se importavas com isso mesmo!
Nunca quis o pouco que eu te dava, na tua cabeça sempre havia mil coisas que não consegui compreender.
Sempre um passo à frente do meu, uma música mais longa que a minha, uma tatuagem mais colorida que eu.
Doeu-me todos os segundos em que te magoei, em que disse palavras não calculadas sobre nós dois, tuas palavras jogadas ao vento, teus sonhos despedaçados.
Pergunto-me o tempo inteiro que espécie de criatura é você. Que tipo de loucuras carrega sobre mim e sobre nós dois enquanto andas nesse mundo.
Já se passaram cinco anos. O tempo já nos deixou quase impotentes.
Tanta coisa vivida. Sentida. Despedaçada.
Olhando a chuva que desaba do céu é como se visse a mim mesma por dentro, como se o próprio céu e a chuva que escorre dele, fosse o sangue que escapa do meu coração ao encontro de outro lugar pra repousar.
É simples, a chuva em seu encontro com a terra não se permite ficar apenas na superfície. Impregna-se nos poros, percorre os caminhos pré-existentes, cria novos e se permite deixar uma marca. Como se no seu ciclo o mundo nunca fosse o mesmo sem ela.
Assim me sinto hoje: como se o tempo tivesse me pregado uma peça.
E como se essa chuva que vejo da janela do nosso quarto, fosse apenas a predição do começo de uma nova tempestade de verão que irá deixar despedaçado mais uma vez nosso pobre coração.
Me lavará o corpo e ficará impregnada cheia de dor e sonhos nos caminhos da minha pele.